Charles Hermann analisa o comportamento das redes e diz que o interesse pelo luxo supera o da moda Gente: notícias, fotos e vídeos de famosos, celebridades, entretenimento e mais.

A moda nunca esteve tão presente nas redes sociais.
Desfiles, campanhas, tapetes vermelhos e coleções ganham repercussão instantânea e alcançam milhões de pessoas em poucos segundos.
Mas, para Charles Hermann, isso não significa necessariamente que o público esteja mais interessado em moda.
Diretor da Victoria Alta Costura, o estilista baiano Charles Hermann vem ampliando sua presença no cenário internacional nos últimos anos.
Com desfiles em Paris e Milão, uma clientela que ultrapassa as fronteiras brasileiras e premiações recentes no exterior, ele acredita que existe uma diferença entre admirar moda e admirar o estilo de vida que ela representa.
A reflexão acontece em um momento em que o mercado de luxo segue em expansão no Brasil e no mundo, impulsionado também pelas redes sociais.
Para Hermann, no entanto, o crescimento do interesse por marcas, produtos e experiências de alto padrão não deve ser confundido com uma valorização genuína da moda enquanto expressão criativa.
“A internet não gosta de moda. A internet gosta de ostentação. Gosta do closet gigante, da bolsa de quase meio milhão de reais, da vida que a maioria das pessoas nunca vai viver”, afirma.
Segundo ele, basta observar o comportamento do público nas plataformas digitais para perceber onde está o foco da atenção.
Para Hermann, a valorização do luxo e do consumo muitas vezes acaba ofuscando aspectos fundamentais da moda, como criatividade, técnica e artesanato.
“Existe uma contradição. As pessoas passam o dia criticando a ostentação nas redes sociais, mas são justamente esses conteúdos que mais despertam curiosidade e engajamento. O interesse está muito mais no símbolo de status do que na moda em si.”
O estilista conta que sua visão sobre esse cenário mudou ao longo dos anos.
“No começo eu ficava surpreso. Depois veio uma certa frustração. Hoje eu apenas enxergo a realidade como ela é. Não deixo mais a hipocrisia reinar quando ouço que o público ama moda mais do que nunca. O que cresceu foi o interesse pelo universo de luxo que cerca a moda.”
Apesar da crítica, Hermann faz questão de destacar que a essência da moda continua viva longe dos algoritmos.
“A verdadeira moda continua acontecendo nos ateliês. Está na pesquisa, no desenvolvimento de novas técnicas, na escolha dos materiais, no bordado feito à mão e no trabalho de profissionais que dedicam meses para transformar uma ideia em uma peça única.”
Em um cenário cada vez mais orientado por números, visualizações e tendências passageiras, o estilista acredita que o maior desafio da indústria está em fazer com que as pessoas voltem a enxergar valor no processo criativo.
“Eu gostaria que as pessoas se interessassem mais pela história de uma peça do que pelo seu valor financeiro. Porque o que realmente torna uma criação especial não é quanto ela custa, mas tudo o que foi necessário para que ela existisse.”
