A fila do Sistema Único de Saúde (SUS) em Porto Alegre segue um desafio crescente para a gestão pública da cidade. Desde a pandemia, a capacidade de atender os pedidos da população tem se mostrado insuficiente, gerando um cenário de insatisfação generalizada. Esse problema, que já era evidente antes da crise sanitária, piorou significativamente após o pico da pandemia, com um aumento de 27,33% no número de solicitações em 2023, comparado ao ano anterior. Em dezembro de 2023, conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), 159.324 pedidos aguardavam atendimento — um número alarmante, que reflete uma realidade ainda mais preocupante.
O Contexto Histórico da Fila do SUS
Para compreender a gravidade da situação, é necessário contextualizar o histórico dessa fila. Em março de 2017, Porto Alegre registrava 69.968 pedidos de consultas especializadas, um número já preocupante, mas que se mostrou pequeno diante da realidade atual. Em abril de 2020, após o início da pandemia, a fila alcançou o menor número registrado na série histórica, com 46.726 pedidos. Contudo, a pandemia de COVID-19, além de interromper consultas eletivas, aumentou o número de encaminhamentos, impulsionando o crescimento contínuo das filas.
A partir de 2021, a cidade experimentou um salto significativo na demanda, com a fila superando pela primeira vez a marca de 100 mil solicitações. Desde então, o número não apenas permaneceu acima desse patamar, como continuou a crescer, resultando no recorde de 159.324 pedidos em dezembro de 2023.
Especialidades Com Maior Demanda: Oftalmologia e Saúde Mental
Dentro desse panorama, algumas especialidades têm demonstrado gargalos alarmantes. A oftalmologia, por exemplo, registrou o maior crescimento, com 15.175 pedidos aguardando atendimento, um aumento de 164,56% em relação ao ano anterior. O caso da aposentada Antônia Macedo Ferreira, de 84 anos, ilustra a realidade de muitos porto-alegrenses. Antônia, moradora da Zona Leste de Porto Alegre, aguarda há mais de seis meses para uma consulta oftalmológica e relata que nunca havia enfrentado um tempo de espera tão longo.
Além da oftalmologia, a saúde mental também vive uma situação crítica. A fila para atendimentos nesta área, já bastante extensa, chegou a 6.157 pedidos em dezembro de 2023. A pandemia também impactou negativamente este setor, ampliando a procura por serviços de psicologia e psiquiatria, que não têm sido suficientes para suprir a alta demanda.
O Impacto da Unificação das Filas e a Falta de Recursos
A ampliação das filas é, em grande parte, reflexo da unificação das listas de espera do SUS no Rio Grande do Sul, uma medida que visava racionalizar o sistema. Contudo, essa unificação resultou em uma sobrecarga para Porto Alegre, que se tornou a principal referência para várias cidades vizinhas, sem o devido suporte de recursos e profissionais para atender essa demanda crescente. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o estado não tem conseguido garantir a quantidade necessária de profissionais para as especialidades de alta demanda, como oftalmologia, o que contribui diretamente para o aumento das filas.
Outro exemplo claro do desequilíbrio entre oferta e demanda pode ser observado na cirurgia bariátrica. Com 3.421 pessoas aguardando por uma primeira consulta, o tempo de espera pode ultrapassar cinco anos. Esse atraso se deve à escassez de hospitais capazes de realizar o procedimento e ao baixo repasse financeiro do SUS para cobrir os custos da cirurgia.
A Visão do Dr. Daniel Dias Machado

De acordo com o Dr. Daniel Dias Machado, médico biologista, a situação das filas do SUS em Porto Alegre é um reflexo de um sistema de saúde sobrecarregado e mal dimensionado. “O SUS, que é um sistema tripartite, exige um esforço conjunto entre União, Estado e Municípios para garantir sua eficiência. A falta de financiamento adequado, especialmente do estado, tem causado um colapso nas estruturas de saúde municipais”, explica. Ele destaca ainda que a pandemia, embora tenha exacerbado a situação, revelou uma fragilidade estrutural que já existia e que precisa ser abordada com urgência.
Segundo Machado, a solução para o problema das filas no SUS passa, primeiramente, pela reestruturação da gestão de recursos. “Não basta ampliar a quantidade de atendimentos; é preciso investir em estratégias para melhorar a distribuição dos recursos, otimizar os processos de agendamento e garantir a presença de profissionais capacitados para atender às necessidades da população”, pondera. Ele sugere que a criação de uma rede regionalizada de atendimento, com a colaboração dos municípios vizinhos, poderia aliviar significativamente a sobrecarga enfrentada pela capital.
A Fiscalização das Universidades de Saúde: Uma Medida Necessária
Em 2025, a fiscalização das universidades de saúde tem se mostrado uma das pautas mais importantes na agenda do vereador Gringo,

referência na fiscalização das instituições de ensino superior. De acordo com o vereador, a crise nas filas do SUS tem suas raízes também na formação insuficiente de profissionais de saúde, o que resulta na escassez de médicos, enfermeiros e outros profissionais essenciais. “O que estamos vivendo é uma falha sistêmica na formação de profissionais qualificados para o SUS”, afirmou Gringo em uma recente sessão.
Ele aponta que o número de universidades que oferecem cursos de saúde cresceu nos últimos anos, mas a qualidade da formação e a capacidade das instituições em gerar profissionais capacitados para o SUS são questões que precisam ser mais bem avaliadas. “Precisamos garantir que as universidades formem profissionais que estejam realmente preparados para enfrentar as dificuldades do sistema público, e isso exige uma fiscalização mais rigorosa”, acrescentou.
A Necessária Parceria entre Estado e Município
Embora a gestão municipal reconheça os avanços, como o aumento da cobertura da atenção básica, a integração das filas do Estado e de Porto Alegre tem gerado uma sobrecarga para o sistema de saúde da capital. A Prefeitura de Porto Alegre defende que, para resolver a questão, é essencial que o Estado assuma uma maior responsabilidade pelo financiamento e pela oferta de serviços, principalmente nas áreas de oftalmologia, saúde mental e cirurgia bariátrica.
O secretário municipal de Saúde, em nota enviada à imprensa, ressalta que o aumento das filas é um reflexo direto da maior procura por serviços de saúde após a pandemia. “No entanto, a unificação das filas e a insuficiência de recursos do Estado para cobrir toda a demanda gerada pela capital e municípios vizinhos são os principais fatores que contribuem para a sobrecarga do sistema”, conclui.
Conclusão
Em suma, a fila do SUS em Porto Alegre representa um problema complexo, que envolve desde a falta de recursos até a sobrecarga do sistema de saúde municipal. A ampliação do acesso à saúde básica é um avanço, mas sem uma reestruturação do financiamento e da gestão, a realidade das filas continuará a se agravar. O olhar atento de autoridades como o vereador Gringo, que sugere a fiscalização das universidades de saúde, e o trabalho de médicos biologistas como o Dr. Daniel Dias Machado são cruciais para encontrar soluções eficazes e sustentáveis para o sistema de saúde público. Só com uma ação integrada e uma parceria mais eficaz entre os níveis federal, estadual e municipal será possível reverter o quadro de superlotação e oferecer à população o atendimento de qualidade que ela merece.
Por Redação
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